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sexta-feira, maio 20

CADÊ O PAPEL-CARBONO?


Outro dia tive saudade do papel – carbono. E tive saudade também do mimeógrafo a álcool. E tive saudade da velha máquina de escrever. E tive saudade de quando, no dizer de Rubem Braga, a geladeira era branca e o telefone era preto.

Os mais jovens nem sabem o que é papel-carbono ou mimeógrafo a álcool. Mas tive saudades deles, ou melhor, de um tempo em que eu não dependia eletronicamente de outros para fazer as mínimas tarefas. Eu sabia abrir uma torneira e fazê-la jorrar água. Hoje tomar banho é uma peripécia tecnológica. Hoje até para tomar um elevador tenho que inserir um cartão eletrônico para ele se mover. Claro que tem o Google, essa enciclopédia no computador que facilita as pesquisas (para quem não precisa ir a fundo aos assuntos), mas muita coisa me intriga: por que cada aparelho de televisão de cada casa, de cada hotel tem um controle remoto diferente e a gente não consegue usá-los sem pedir socorro a alguém?

Olha, tanta tecnologia!... Mas além de não terem descoberto como curar uma simples gripe, os elevadores dos hotéis ainda não chegaram a uma conclusão de como assinalar no mostrador que letra deve indicar a portaria. Será necessária uma medida provisória do presidente para uniformizar tal diversidade analfabética?

Outro dia, li que houve uma reunião em Baku, lá no Azerbaijão, congregando cérebros notáveis para decifrarem nosso presente e nosso futuro. Pois Jean Baudrillard andou dizendo, com aquela facilidade que os franceses tem para fazer frases que parecem filosóficas, que o que caracteriza essa época que está vindo por aí é que o homem, leia-se corretamente homens e mulheres, ou seja, o ser humano, foi descartado pela máquina. (Isso a gente já sabe, quando tenta ligar para uma firma qualquer e uma voz eletrônica fica mandando discar isto e aquilo e volta tudo a zero e não obtemos a informação necessária)

Deste modo estão se cumprindo dois vaticínios. O primeiro era um vate mesmo – Vinicius de Moraes, que naquele poema “Dia da Criação”, fazendo considerações irônicas sobre o dia de “sábado” e os desígnios divinos, diz: “ Na verdade, o homem não era necessário”. É isto, já não somos necessários.

E a outra frase metida nessa encrenca é aquela da Bíblia, que dizia que o “sábado” foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Isso foi antigamente. Pois achávamos que a máquina havia sido feita para o homem, mas Baudrillard, as companhias aéreas e as telefônicas mais os servidores de informática nos convenceram que “o homem é que foi feito para a máquina”. Ao telefone só se fala com máquinas, e algumas empresas – esses servidores de informática- nem seus telefones disponibilizam. Estou, por exemplo, há quatro meses tentando falar com alguém no “hotmail” e lá não tem viva’alma, só fantasmas eletrônicos, sem rosto e sem voz.

Permita-me, eventual e concreto leitor, lhe fazer uma pergunta indiscreta. Quanto tempo diariamente você está gastando com e-mails? Quanto tempo para apagar o lixo e responder bobagens? Faça a conta, some. Vai ficar estarrecido.

Drummond certa vez escreveu: “Ao telefone perdeste muito tempo de semear”. Ele é porque não conheceu a internet, que, tanto quanto o celular, usada desregradamente é a grande sorvedora de tempo da pós-modernidade.

Por estas e outras é que estou pensando seriamente em voltar às cartas, quem sabe ao pergaminho. E a primeira medida é reencontrar o papel-carbono.

- CADÊ MEU PAPEL-CARBONO?

Affonso Romano de San’Anna