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quinta-feira, setembro 16

Viver sem Morrer

 
“Há previsões de uma revolução na medicina, com descrições de novas descobertas, muitas ainda em escala laboratorial”
Desde que o homem se entende por homem, a única certeza que possuímos é que um dia todos irão morrer. Em poesias, músicas, textos dissertativos, histórias, pinturas, monumentos e em todas as outras expressões de arte humana encontramos sempre algum resquício do medo do homem de morrer.
“Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar”

Nesta canção em que Raul compôs para a própria morte, ele retrata o medo do homem de pegar o trem de ida. Mas tampouco entendo esse medo humano da morte, já que é algo comum pra todos, é uma porta em que todas passarão sem o desejo de voltar. Mesmo assim esse medo existe em todos nós. Esse medo fez com que acreditássemos fielmente em ressurreição e reencarnação. Esse medo construiu muita coisa nos homens, tal como a responsabilidade, a ética, a moral, etc.
“Há muitos séculos, em um ponto perdido do universo, banhado pelas cintilações de inúmeras galáxias, houve um dia um planeta em que animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta se congelou e os tais animais inteligentes tiveram que morrer.”
Nietzsche escreveu isso no fim do século XIX, querendo dizer que por trás da busca racional da verdade, está o desejo da morte. Preocupação constante com a própria morte: “Todos devem ter presente a perspectiva de morte e devem estar preparados para o momento decisivo”.
Eu poderia citar aqui inúmeras expressões humanas sobre a morte. Porém o que mais me chama atenção é o progresso científico culminando há um só objetivo: Eternidade. Há muitas pessoas que criticarão esse assunto tão precoce, mas não será por falta de argumento. Com tantos progressos tecnológicos, a disponibilidade e a qualidade da medicina melhoraram de forma espantosa na metade do século XX, com a vacina, anestesia, raios X, cultura de tecidos, antibióticos e a descoberta da estrutura do DNA. Sem falar de conquistas mais recentes, incluindo, entre outras, a terapia combinada  que aumentou a sobrevida dos portadores de HIV.
Esse conhecimento já nos permite viver mais e melhor, possibilitando no, no último meio século, aumento da expectativa de vida em quase 50% em relação à anteriormente esperada. Cada descoberta apresentada permitia conhecer melhor a célula, os tecidos, os órgãos. E cada descoberta aumentava o desejo de um momento melhor.
O que o século XXI nos reserva? Eternidade?
Há previsões de uma revolução na medicina atual, tanto no diagnóstico quanto no tratamento, com descrições de novas descobertas, muitas ainda em nível laboratorial. Em relação à medicina preventiva, podem-se deter enfermidades e disfunções. A medicina recuperativa permite a recuperação da funcionalidade de órgãos, e a regenerativa possibilita regeneração ou substituição de células, tecidos, órgãos por um conjunto de procedimentos.
A medicina da performance e da longevidade assegura aumento do potencial físico, mental e da esperança de vida, como a medicina do rejuvenescimento. A tecnologia, nos últimos anos, manteve seu desenvolvimento em velocidade inimaginável, culminando com uma geração atual de adolescentes vivendo a aurora da informática, com nova linguagem e contacto entre as pessoas muito rapidamente. Já não se fala mais em bit ou bytes, mas em terabyte, pentabyte, exabyte e Ebytes.
Com a crescente velocidade da troca de informações houve diminuição proporcional dos componentes e dos elementos presentes nos equipamentos desenvolvidos. Iniciou-se a era da nanotecnologia e na da nanorrobotização que poderá permitir a concretização do maior sonho humano.
Relaciona-se ao menor robô, do tamanho de uma molécula, o futuro da medicina moderna. O DNA Walker poderá ser programado para andar livremente pelo organismo como se usasse um GPS. Ele aprendeu apenas a andar, parar, voltar e transportar átomos de ouro. Mas os cientistas acreditam que num futuro próximo, estruturas como essas poderão ser utilizadas na medicina. As moléculas de DNA poderiam, por exemplo, procurar células doentes e tentar curá-las. Seriam úteis para exterminá-las antes que criassem um tumor. Acredita-se que esses robôs possam carregar fatores tróficos, antibióticos e quimioterápicos para locais específicos do corpo humano.
A medicina do futuro, assim como ocorreu com a medicina do passado e com a atual, terá um grande impacto para que as pessoas atinjam a longevidade com melhor controle das doenças, mesmo aquelas consideradas progressivas, irreversíveis e incuráveis.
Fonte: Texto “Viver sem morrer” da Scientific American por Acary Souza Bulle Oliveira é professor do laboratório de Patologia Neuromuscular da Unifesp.